
Carole Ghosn é frequentemente reduzida ao seu papel de esposa de Carlos Ghosn, o ex-CEO da Renault-Nissan. Seu nome surgiu na mídia após a prisão de seu marido no Japão em novembro de 2018. Mas seu percurso pessoal, suas escolhas de vida e seu papel ativo na defesa de Carlos Ghosn desenham um retrato muito mais complexo do que uma simples figura conjugal.
A proibição de contato, um gatilho desconhecido da fuga do Japão
Por que Carlos Ghosn assumiu o risco insensato de fugir do Japão escondido em uma caixa de equipamento de áudio? As análises frequentemente se concentram na lentidão da justiça japonesa ou na dureza das condições de detenção. Um fator menos divulgado, no entanto, pesou muito na balança.
Durante sua detenção, e depois durante sua libertação sob fiança, todo contato direto entre Carlos e Carole Ghosn foi proibido pelos tribunais japoneses. Essa medida, prolongada por vários meses, isolou radicalmente o casal. Segundo o Japan Times, esse atraso no processo combinado com a impossibilidade de se comunicar com sua esposa contribuiu diretamente para sua decisão de deixar o território.
Para Carole Ghosn, essa proibição também representava um teste pessoal. Ela, que fazia campanha junto à mídia internacional e aos líderes políticos, não podia trocar ideias livremente com o homem que defendia publicamente. Este artigo permite saber mais sobre Carole Ghosn no Encrages e sobre as dimensões de seu engajamento.
Carole Nahas antes de Carlos Ghosn: estudos, Nova York e empreendedorismo
Nascida em Beirute em 1966 com o nome de Carole Nahas, ela cresceu no Líbano antes de prosseguir seus estudos de odontologia na Universidade Americana de Beirute. Sua vida profissional conhecida foi construída em Nova York, onde acompanhou seu primeiro marido, o banqueiro Marwan Marshi, executivo do Citigroup.
Ela criou em Nova York uma marca de caftans de luxo chamada Calm, em colaboração com a designer Alison Levasseur. As peças eram fabricadas no Líbano. Uma parte da receita era destinada a uma associação que apoia mulheres libanesas carentes. A empresa fechou após alguns anos de atividade.

Do seu primeiro casamento, Carole Ghosn teve três filhos. Seus dois filhos, Daniel e Anthony, seguiram carreira na área financeira. Sua filha Tara continuou seus estudos. Todos frequentaram o Lycée Français de Nova York, sinal de um enraizamento na comunidade franco-libanesa da cidade.
Casamento com Carlos Ghosn: da relação secreta a Versalhes
A encontro entre Carole Nahas e Carlos Ghosn ocorreu enquanto este ainda era casado com Rita Khordahi, mãe de seus quatro filhos (Caroline, Anthony, Maya e Nadine). Em 2013, seu relacionamento foi tornado público. O casal oficializou sua relação no mesmo ano, fotografado de mãos dadas no Trophée des Arts Gala em Nova York.
O casamento civil foi celebrado em 2016 na prefeitura do XVI arrondissement de Paris. A recepção, organizada no Grand Trianon de Versalhes, marcou os ânimos por seu esplendor. Esta festa coincidiu com o quinquagésimo aniversário de Carole. A escolha de Versalhes, lugar carregado de símbolos, alimentou mais tarde as críticas sobre o estilo de vida do casal.
Três filhos, duas famílias reconstituídas
Com os três filhos de Carole e os quatro de Carlos, a família reconstituída conta com sete filhos ao todo. Caroline Ghosn, filha mais velha de Carlos, nascida em 1987 em Nova York, seguiu sua própria carreira no empreendedorismo, distinta do universo automotivo. Essa configuração familiar complicou a gestão midiática do caso, cada ramo do clã tendo seus próprios laços com o Japão, os Estados Unidos, a França e o Líbano.
Mandado de prisão japonês e notificação da Interpol contra Carole Ghosn
Após a fuga de Carlos Ghosn no final de dezembro de 2019, a justiça japonesa emitiu um mandado de prisão visando Carole Ghosn. Os motivos invocados dizem respeito a suspeitas de falso testemunho. Esse ponto é frequentemente mencionado na imprensa francesa sem que se meça as consequências concretas.
As autoridades japonesas obtiveram uma difusão internacional via Interpol (notificação vermelha) referente ao casal Ghosn. Para Carole, isso significa que ela está potencialmente exposta a uma prisão em muitos países, especialmente na Europa e na América do Norte. Concretamente, seus deslocamentos internacionais estão restritos há vários anos.
Veja o que essa situação implica no dia a dia:
- Qualquer passagem de fronteira em um país que coopera com a Interpol representa um risco de detenção, mesmo para um simples trânsito aeroportuário.
- O Líbano, onde o casal reside, não possui acordo de extradição com o Japão, o que oferece uma proteção de fato no território libanês.
- As viagens à França ou aos Estados Unidos, dois países onde Carole Ghosn viveu por muito tempo, tornaram-se juridicamente arriscadas.

Campanha midiática e papel político de Carole Ghosn
Desde a prisão de Carlos Ghosn, Carole Ghosn assumiu um papel público incomum para uma esposa de dirigente. Ela solicitou diretamente a Emmanuel Macron, então presidente da República, que interviesse no caso. Ela multiplicou as entrevistas na imprensa francesa e internacional, do Parisien ao New York Times.
Seu discurso sempre seguiu uma linha constante: defender a inocência de seu marido e denunciar o sistema judiciário japonês, que ela qualificava de perseguição política. Durante a coletiva de imprensa de Carlos Ghosn em Beirute em janeiro de 2020, ela estava sentada na primeira fila. Assim que a fala terminou, ela deixou a sala sem comentários, passando a palavra a seu marido.
Esse posicionamento mistura apoio conjugal e estratégia de comunicação. Carole Ghosn nunca reivindicou um papel de porta-voz oficial, mas de fato ocupou esse espaço durante os meses em que Carlos esteve detido ou silenciado. Ela permaneceu a voz pública do casal quando ele não podia se expressar.
O percurso de Carole Ghosn não se resume ao caso judicial. Entre Beirute, Nova York, Paris e o Líbano atual, ela atravessou várias vidas, várias identidades, várias imposições. A notificação da Interpol que pesa sobre ela transforma cada deslocamento em um cálculo jurídico, bem longe do esplendor de Versalhes.